Mundo cão


Nenhum carro nunca mais passou, nenhum motor nunca mais roncou e o silêncio era pesado, quebra-lo era arriscado. Os carros abandonados tornaram-se ninhos de pássaros, de ratos, de gatos. Mas eles não estavam lá: complexos primatas civilizados. Não estavam em lugar nenhum. E ninguém cortou a grama no verão.

Seu nome era um nome engraçado, nome de comida num bicho, ideia de criança levada, criança risonha, de mente cheia de perguntas sem respostas. Ideia de uma criança que já não estava em lugar algum. Criança que já não era criança então, que perdeu-se no mundo, que perdeu-se do mundo. Criança de quem ele sentiu falta por todos os dias que vieram depois.

O mundo acabou e ele ficou a esperar alguém que não poderia voltar. O mundo acabou e ninguém lembrou de avisar.

Não poderia fugir, não saberia fugir. A solidão foi sua sentença. Os muros eram altos, feitos para a proteção de um perigo que não mais existia. A água era escassa e a chuva bem vinda. Comida era caça: um pássaro ferido, um rato descuidado ou as frutas que o vento derrubava no jardim. Mas o gosto era sempre igual, gosto de solidão e saudade.

Saudades. Fora humanizado demais para que o tempo sua dor curasse. Fora civilizado demais para que sua liberdade viesse a buscar. Apenas queria acreditar que os velhos dias sempre poderiam voltar. Não sabia, ela não estava em nenhum lugar. Nunca mais estaria, ninguém a substituiria.

Já não havia uma família a proteger. Já não havia um motivo que o fizesse correr até o portão todo final de tarde. Já não havia motivos. Apenas deixou o tempo passar, apenas deixou o tempo chegar, deixou o tempo leva-lo para onde não mais pudesse voltar. Aquele já não era o seu mundo afinal.






Fonte da imagem: http://skia.deviantart.com/art/It-s-A-Dog-s-Life-165682207