"Sou um artista e minha obra sou eu" - Lolita Pille



O carro em alta velocidade e minha mãe a tagarelar sobre as barbeiragens de um motorista qualquer. E só me convém pensar que você saberia argumentar, assim como convém questionar se pensa em mim.

O reflexo no retrovisor a me distrair, a mostrar alguém que não sei se sou, alguém que talvez eu possa ser, eventualmente, se convir. Alguém que não sei se diz quem eu realmente sou ou se apenas é o que é, sem trazer a mentes alheias a beleza das duvidas que gosto de carregar.

Uma garota de cabelos ao vento e um tom forte de batom. Um rosto cujos pequenos defeitos até posso disfarçar, se bem me dedicar. E sorrio, talvez por alegria, talvez por vaidade. Poderia fazer-me personagem de alguma crônica ou poesia boba para escrever durante a silenciosa madrugada enquanto toda a minha preocupação é pensar em ti.

E me perco em pensamentos, imaginando as poesias que você faria, caso fosse poeta, caso em mim pensasse, caso haja oportunidades de apresentar-te minhas pequenas manias estranhas (que combinam tanto com as tuas). Perco-me como Narciso perdeu-se um dia, pois talvez você possa amar também aos meus defeitos.

Pois sei que você tem lido o que eu escrevo, lembro que comparou-me a certa escritora, fazendo minha secreta paixão por ti aumentar. Sei que você tem lido, e é por isso que escrevo nesses dias de insuportável calor. Sei que em meio a meus versos e contos tortos pode encontrar pedaços de mim e aos poucos também se apaixonar pela arte que fiz de meus sentimentos e de minha rara vaidade.

Posso me fazer em arte, posso nos refazer em arte. Você pode me encontrar nas palavras em que me perdi?

O tortuoso caminho do ônibus


Da pedra os bosques brotam
Em uniforme desordem.
A cada esquina as cores esgotam.

E os versos correm,
O asfalto é torto
Faz do poema quase morto,
E os versos escorrem.

Não são pedras no caminho,
Tampouco ovos de passarinho.
Gigantes crateras de carbono
Perduram desde o último outono.

E correm os versos
Descrevem mil universos.

E caem letras pela estrada
Sumindo em poeira dourada.
O pó às palavras devora,
Ao poema o mundo ignora.

Sobrassem as ideias da viagem
Não fosse tão grotesca paisagem.

Da corrupta cidade poluída
Resta-me das rimas a pobreza
Ao percorrer outra avenida.




Fonte da imagem: http://www.deviantart.com/art/the-city-lights-152148064