Disclaimer: Os personagens aqui mencionados não me pertencem, são todos de autoria da queen J.K. Rowling. Mas é claro que se alguém quiser pagar para ler isso eu aceito.

Shipper: James/Narcisa

Obs. Universo Alternativo(sem magia). Trata-se de uma songfic da música "Eu nunca disse adeus" da banda Capital Inicial.



































O céu parecia lamentar a dor do jovem que bebia para não chorar. A tempestade parecia mais intensa a cada instante como se pudesse alagar o mundo pelas lágrimas inexistentes do amor perdido. As lágrimas pelo amor que poderia ter sido e não foi.

Quando ali chegara, James Potter não poderia prever as surpresas que a noite guardava. Não imaginava os segredos que a pista de dança escondia. Soube, no entanto, que era uma noite especial ao avistar aqueles cabelos loiros servirem de moldura para o que chamou de “sorriso perfeito”.

Eu não sei o que eu to fazendo mas tenho que fazer
Naquela noite que eu te conheci eu acho que nunca vou esquecer


Não entendia porque, mas precisava falar com ela. Precisava dela, mais do que precisava da bebida, mais do que precisava das lágrimas do céu. Perdera a noção do tempo ao avistar aqueles belos olhos azuis. E soube também que precisava dos lábios dela nos seus.

Com uma coragem que não conhecia ousou se aproximar da dona do sorriso perfeito. O que disse a bebida apagou de sua memória. Guardou somente pequenas palavras soltas de uma conversa que talvez nunca tenha feito sentido. E nada importavam as palavras, ele lembrava somente que fora uma noite quase perfeita. Uma noite que não era noite, tão cheio de luzes e cores se fazia aquele lugar.

Um momento quase perfeito inocente em seus defeitos
Tudo que é bom dura pouco e não acaba cedo.


No entanto, a única cor que via era o azul dos olhos dela. E por aquela noite esqueceria os olhos verdes que indiretamente o trouxeram até ali. Lembraria então de seu riso que parecia silencioso diante da música que abafava a tempestade. Música que não abafava somente suas dores, que não apagava os efeitos que a bebida lhe causava.

Agora pra sempre
foi embora mas eu nunca disse adeus
Agora pra sempre
foi embora mas eu nunca disse.


E sob sussurros gritados pediu para que a lua fosse somente sua. Pois ela seria sua lua por aquela noite. Havia vida e cores demais para que pudesse comtemplar o brilho de seu sorriso. E como poderia desejar fugir para ter a lua diante da mais escura das tempestades?

Eu disse vamo embora to meio tonto
Preciso respirar lá fora
Me leve para sua casa
Eu quero dormir onde você mora
Eu passando mal e você ria
Tanto barulho eu não entendia
Mas concordava sem saber
Com tudo que você dizia.


Sem conhecer o nome da princesa que encantaria seus sonhos fazia promessas que jamais cumpriria. Poderia abandonar seus vícios e sob as ordens dela cometeria qualquer loucura. Nada mais fazia sentido em sua mente embriagada.

Se me pedisse pra pular de um prédio
Eu diria sim

Qualquer coisa pra você gostar de mim.


A jovem mulher – que talvez até fosse princesa – não fez questão de revelar seu nome. E apenas ria diante das promessas absurdas do rapaz. Poderia esquecer-se de seus problemas por uma noite. Poderia ser Natasha, Isabel ou Fátima. Somente não seria Narcisa, somente não carregaria consigo as tradições falidas que exibia orgulhosamente sob a luz do sol.

Agora pra sempre
foi embora mas eu nunca disse adeus
Agora pra sempre
foi embora mas eu nunca disse


Ela somente tinha certeza de que o amaria por uma noite, não mais que isso. Não poderia revelar onde estivera, não poderia concordar com as propostas dele. E sem motivos apenas ria, ria das atitudes dele, ria porque naquela noite não precisava ser ela. E assim Narcisa, que poderia ser princesa ou até mesmo a lua, acompanhou-o em mais uma dose da bebida amarga.

E assim o estranho casal – que jamais seria realmente um casal – optou por dançar sob as lágrimas do céu. Lágrimas que talvez fossem de alegria. Confusa alegria.

Eu perdi o rumo e comecei a delirar
Acho que prometi até parar de beber e de fumar


E James – que era somente James – tornaria a repetir suas promessas. Mas ela não mais se importava com a música e os risos, e acompanhando sua falta de sentido tomou para si os lábios daquele que não era seu noivo.

Um beijo que ele correspondeu. Beijo que o levou a esquecer dos motivos que o fizeram procurar na bebida uma companhia, que fez das lágrimas do céu somente alegria. E a chuva envolvia aqueles jovens que queriam ser tudo, menos o que realmente eram. Somente a chuva foi testemunha daquele beijo e da noite que deveria não ter fim.

Se foi um ou se foram dez beijos ele não saberia dizer. Lembrava somente do gosto doce misturado à bebida que os fizera perder a razão. Somente lembrava da tempestade que deixara rastros em sua roupa molhada.

De repente a noite acaba e todo mundo some
Eu me lembrei que eu esqueci de perguntar o seu nome
Sem endereço nem direção por onde começar
Qualquer coisa pra poder te encontrar


E a luz do sol alcançava o sofá da sala para que James voltasse a ser somente um Potter rejeitado. Um Potter que perdera seu lírio e que não reconhecera seu narciso. Era esta a mesma luz que invadia o quarto de uma Narcisa que acordaria para tornar-se Malfoy. De uma mulher que guardaria sempre o beijo roubado em suas melhores lembranças, assim como a noite que ele lhe roubara.

Agora pra sempre
foi embora mas eu nunca disse adeus
Agora pra sempre
foi embora mas eu nunca disse.


E James Potter ainda carregaria consigo a tradição de admirar as mais belas flores, por mais que não reconhecesse seus nomes.

Obs. Texto originalmente postado dia 23/05/12, um singelo presente de aniversário para o João, que sonha em ir para Nova Iorque e que escreve no Sede de Palavras.



























Inverno em New York



Os pés calçados pisaram no solo frio, repletos de energia para ir a qualquer lugar. Mas não havia lugar para onde pudessem caminhar, estavam exatamente onde gostariam de estar. As pernas permaneciam firmes, como se diante de um movimento brusco o vento pudesse leva-las.

Os braços, contudo, não hesitaram: queriam abraçar o mundo, ou quem sabe abraçariam somente a bela paisagem daquela cidade. Talvez quisessem voar, apenas para sentir o vento gelado os embalar, para permitir aos olhos a visão que os fizesse chorar.

A face era um sorriso completo, que começava discreto nos lábios e refletia-se brilhante nos olhos claros. Por um instante, entretanto, fechou os olhos apenas para sentir o vento tocar o rosto, para sentir os últimos flocos de neve da madrugada tocarem a ponta do nariz. E não importava se os óculos estariam molhados ou embaçados.

Era a perfeita sensação de um sonho realizado!

Finalmente tomou coragem suficiente para continuar seus passos de rumo ainda indefinido. O vento não o levou, sequer apagou as pegadas abandonadas na neve, apenas o acompanhou bagunçando os poucos fios de cabelo descobertos.

Diante de si estava o parque que mesmo sem nenhuma indicação saberia reconhecer. E apesar do frio algumas pessoas corajosas não dispensavam sua caminhada matinal. Só então comtemplou o belo céu azul que se abria sobre si naquele começo de dia. Raras nuvens pintavam o céu com tons de rosa, encantando qualquer observador que ousasse olhar acima dos prédios da cidade.

- Wonderful! – de repente seus pensamentos não bastavam para a alegria que guardava em si, e mesmo sem necessidade usava a língua nativa do país que visitava.

Na aurora de um frio dia nova-iorquino uma jovem parou para acompanhar o olhar do rapaz em direção ao céu.

- Yeah! It’s so beautiful!

E o olhar dele não estava mais perdido no céu, mas sim no azul de olhos até então desconhecidos. Olhos que algum dia poderiam ser a inspiração de sua alegria mais do que um passeio sobre a neve do Central Park.

























O Caminho do vento

O vento imundo que aqui sobrevive
Veio das montanhas geladas,
De terras quase imaculadas,
Ao extremo sul, onde jamais estive.


A brisa que vejo espalhar o lixo,
Por quantas terras terá passado?
Talvez Icebergs tenha moldado.


E neste começo de verão
Vejo restos de vidas soprados.
Anotações, números e latas rejeitados.
A cidade não é bela então.


Nada é belo por aqui agora,
Há apenas pedaços de poluição.
E ruínas do que foi outrora.


Nem a música alta me atinge
Nem a promocional cor vibrante
Tampouco a miséria chocante.
E um dia chuvoso não me aflige.


Escolho melodias esquecidas.
Prefiro cores quase naturais,
Sofrimento é parte de rotinas perdidas.


Então apenas caminho contra o vento,
E o mundo da selva-de-pedra ignoro
Como se fosse o último, vivo este momento,
Ao caminhar, poesias inventadas decoro.


Caminho para casa, numa indesejada rotina,
Quem dera fosse até onde nasce o vento.
Onde as cores não se repetem a cada esquina.


























Censura: 16 (presença de drogas ilícitas).

Obs. O texto se passa na década de 60, inspirado no movimento hippie.







Um bilhete:

“Fui viver a vida. Não sei se volto.”


Levou consigo apenas uma mochila. Nela colocou todos os sonhos e esperanças do mundo.

Hesitou por um instante diante da coleção de discos e do rádio na sala de estar. Mas não havia o que temer, a música estaria por todos os lugares por onde passasse. O resto não importava.

As últimas estrelas brilhavam no céu quando abandonou o conforto do lar. Com os pés na estrada e a mochila nas costas sorriu para o mundo. Pois agora o mundo era seu, estava pronto para voar.

Sentindo o doce sabor da liberdade seguiu para longe, para qualquer lugar. Qualquer caminho servia. Qualquer lugar em que a paz e a música habitassem poderia ser seu destino.

Liberdade. Não solidão. Pois em sua estrada encontrou amigos, amores e abrigos que duravam somente uma noite. E foram muitos os amores, cada um com seus sabores. E foram muitas as músicas tocadas sob a luz do luar.

E foi numa bela noite estrelada que lhe ofereceram mais um novo e doce sabor. Pela segunda vez hesitou, lembrou-se de verões passados, quando prometera à sua mãe nunca tomar daquela droga. Pensou. Mas em toda sua vida sonhara com a liberdade, com suas próprias escolhas. Assim tomou em suas mãos o cigarro que não era de tabaco. E riu. Riu da fumaça, riu da vida.

E assim o pássaro preto voava. Sem importar-se com tudo que ficava para trás, com as esquinas dobradas. Pois tudo que vivera antes fora o sonho com aquela liberdade.

E os meses e estações passavam em seu voo. Talvez fosse preciso pousar. Talvez nem a liberdade seja eterna. Mas antes seria preciso sobrevoar a mais bela praia, viajar pelo mais doce sabor. Este sabor que tinha gosto de música, de paz e amor. E ao tempero da droga também tinha cor.

Não foi em qualquer lugar que ele a encontrou, não foi em qualquer esquina. Tratava-se da maior festa da música, do rock. Tratava-se de Woodstock. E era a festa da paz e da liberdade. E ele esteve entre aqueles que derrubaram os portões e as barreiras. Que fizeram daquela a maior festa da paz.

E por acaso ou destino, encontrou-a no mar. Mar que era de pessoas, mar que era da paz. E de todos seus amores ela era especial. Dentre todos os sabores provados ela era o mais doce. Dentre todas as drogas ela o fez ver todas as cores do futuro.

O som da boa música sempre ecoaria em sua mente, assim como as próprias cores tão vivas que via. E seria ali a última praia que o pássaro preto sobrevoaria. Não seria ainda o último cigarro, mas seria a última dose de LSD, a última dose de tantas cores.

E o pássaro preto ainda viveria para amar. E ainda seria quem ele sempre sonhara em ser. E o pássaro preto era também de todas as cores.


Obs. Texto sem nexo, sem gênero, sem qualidade, sem nada. Apenas um quase-conto, quase-crônica, projeto de poesia que precisava ser escrito, que precisava ser postado. Apenas um punhado de pensamentos quase-soltos presos a um tempo no espaço.



Quase parada, quase em movimento, em uma dança de nome ainda indefinido. Apenas fingindo acompanhar a batida da música, permitindo que a semi-escuridão esconda o quão avidamente ela o devora com o olhar. Sentindo-se tão perdida, sabendo que não pertence a nenhum lugar.

Apenas observa, sentindo o tempo passar escorrendo entre seus dedos de longas unhas vermelhas (tão comuns ao mundo, tão distantes de si mesma). O tempo passa enquanto se esgotam suas chances de fazer de sua noite algo melhor que outro arrependimento. E ela sente o próprio mundo girar, enquanto um novo sol se prepara para nascer.

Mas a dor toma seus pés desabituados àquela estranha vida de noite repleta de luzes coloridas, onde não há lua nem estrelas. Talvez note que o mundo acaba lentamente. Mas nada importa como a maneira em que poderiam queimar. Não enquanto o tempo ainda contar.

Despertando-a de um mundo-quase-paralelo vêm as palavras tão parecidas com as construídas em seu diálogo mental. Todo o universo ao menos uma vez colaborando ao seu favor. A menina-mulher tem todo o mundo a seu dispor, mas não tem a si mesma. As palavras quase decoradas não saem, perde-se em palavras comuns e não planejadas. Palavras não poéticas, palavras tímidas e erradas.

E o mundo desaba, sua noite acaba antes que o sol possa seus cabelos desalinhados tocar. Seu anjo, mortal e pecador, desaparece entre a multidão imersa na noite e na não-poesia. Sem volta, sem uma doce despedida.

Para a jovem vampira a noite é apenas poesias, brigadeiro e filmes de cavaleiros em batalhas estelares. É apenas incompreensão e arrependimento. Mais uma vez a noite acaba e o mundo continua sem um final digno de Hollywood. Enquanto em algum lugar lá fora a lua cheia brilha para os que se dão ao luxo de confessarem-se apaixonados.





















Em uma década passada, em um belo dia de céu azul e nuvens brancas de formas engraçadas a refletir tortuosamente o mundo, há uma criança na janela de uma casa. Uma janela comum, uma casa comum, uma rua comum. Nada em especial, exceto pelo olhar sonhador da criança na janela. Uma garota, cabelos claros e revoltos, indecisos entre cachos e fios lisos. Quatro anos de idade recém-completos e toda uma vida de escolhas diante de si.

Mas o que uma criança observa na janela em um dia tão belo para subir em árvores ou inventar um novo esporte? A resposta não poderia ser mais simples: observa outras crianças. Rostos jovens a interromper a quietude da rua com suas conversas e risadas, apenas o fim de outro dia de aulas.

A escola! É a escola que a garota observa através de cada uniforme, de cada mochila, de cada sorriso. E a menina sorri encantada. E olha para a mãe não muito distante com uma pergunta simples demais para uma criança:

- Mãe, quando vou para a escola?

O dia chegou, a eternidade de espera passou e foi a escola, despreocupada, apaixonada pela vida. Assustando a própria mãe em sua ausência de medo. Não chorou, não quis voltar, não receou. Correu na direção da professora sem temer a ausência materna. E descobriu ali, naquela mulher sorridente e atenciosa, outra mãe. Não compreendia os colegas que hesitavam em deixar o colo dos pais para adentrar aquele mundo voltado para as crianças.

Com o tempo aprendeu: mudavam os colegas, os professores e até mesmo as escolas. Mas sempre ficariam lembranças guardadas com um carinho especial.

A garota cresceu, como é natural da infância, seus cabelos lentamente abandonaram os cachos e os dias nublados hoje lhe parecem mais agradáveis do que dias ensolarados. Contudo, a escola continua sendo um sonho agradável para se pensar em um fim de tarde com certo romantismo.

É claro, não se recorda de cada dia que passou, não se recorda de cada nome que conheceu, tampouco suas faces gravou. Mas é um pouco de cada pessoa que encontrou no caminho que percorreu. Lembra-se ainda de algum dia perdido no tempo do jardim de infância, quando a professora (a quem chamavam “tia”) explicava para a turma quando usar ‘m’ e ‘n’ nas palavras. Assim como recorda do colega que corria ao colo da mesma professora nos dias de tempestade.

Recorda-se dos amores e de momentos que gostaria de esquecer. As broncas de uma professora na terceira série e a preguiça de calcular tantos números tediosos enquanto poderia viajar pelos primeiros livros em que as figuras já não importavam tanto. Tem na memória o conteúdo de um livro de ciências da quinta série, e ainda guarda para si a sensação da descoberta ao ler cada capítulo que ousou adiantar, ansiosa demais para esperar que as aulas viessem.

Alguns nomes ficaram, como o da professora que tinha o mesmo nome de uma música que fazia sucesso naquele ano. Assim como não poderia esquecer-se do professor que amava o número 15 e que não falava somente em matemática, mas insistia em boas maneiras e trazia consigo sempre um sorriso contagiante. Outras faces marcaram pelo tempo, como a professora de artes que a acompanhou por quase toda uma vida escolar, e a professora de espanhol, que com o passar de cinco anos ainda trocava o nome dos alunos.

Vieram aqueles que ficaram pouco tempo e gravaram um pedaço de si no coração (ou na mente) da menina que aos 13 anos apenas tinha certeza de seu amor pelas palavras. O professor de geografia, cujas aulas insistem em ecoar na mente sempre quando seu conteúdo por algum motivo é relembrado. Memórias que vêm acompanhadas de um sorriso nostálgico que sente falta até mesmo de broncas que assustavam mesmo as mais desorganizadas turmas.

Descobriu amizades passageiras e outras que seriam eternas ainda que os caminhos da vida as separassem (afinal, amizades que se formam pela opinião comum em discordar de todos não podem ser tão simples). E também entre seus mestres encontrou tal sentimento de amizade. As professoras de português, sempre tão gentis, interessavam-se ao saber dos sonhos da menina e de sua paixão pelos livros. E plantaram na memória aqueles complexos trabalhos em equipe que a principio pareciam tediosos e acabaram por tornar-se apenas outra desculpa para ser feliz.

Entre uma aula e outra encontrava o universo paralelo dos livros a ignorar as leis da física (a qual ainda não decidiu amar ou odiar). Ali onde também havia aulas, mas seu material exigia caldeirões de estanho e um livro monstruoso para que fizesse poções imaginárias e cuidasse de criaturas mágicas. Mas eles estavam sempre presentes, os mestres que poderiam ser amigos a ensinar sobre a vida ou fingir-se de carrascos apenas para esconder o amor pelo que faziam.

Quando se cansava das regras da gramática e das leis da ciência encontrava a alegria de mergulhar na história. Submergia nas aulas (ainda que, por vezes, tediosas a outros olhos) com um sorriso espontâneo, como se realmente visse o império romano ruir diante do teatro improvisado moldado no cenário das salas de aulas. E sabia que a qualquer momento a história poderia transformar-se em literatura.

E claro, jamais poderia esquecer-se das aulas de biologia que a fizeram encontrar uma das respostas para aquela velha pergunta da infância: “O que você vai ser quando crescer?" A resposta estava ali, entre aquelas aulas da genética que a encantava e os acirrados debates sobre o surgimento da vida. E contava os dias para que chegasse a próxima aula, para encontrar alguma surpresa que os livros não pudessem contar, achando que tudo ainda era pouco.

Uma das respostas, pois não se contentava com apenas uma. Já conhecia a outra desde um tempo em que as memórias confundiam-se em sonhos, mas a reencontraria nas aulas de literatura com o passar de cada ano. Na epifania de um professor apaixonado por Clarice Lispector, nas aulas daquele que lhe explicou que a arte nem sempre é bela, às vezes é apenas chocante, ou no discurso quase poético de certo mestre encantado pela poesia de Pessoa e Drummond.

E sabia, não poderia ter apenas uma resposta enquanto não provasse de ambas. A contragosto, o fim da jornada a alcançava. Não antes que um professor rigoroso lhe ensinasse que é possível obter uma nota máxima mesmo em matemática, e que um professor amigo (ou seria amigo professor?) a ensinasse a gostar da química que por dois anos tão intensamente odiara.

Continuou sonhando, continuou estudando e buscando o caminho certo. Redescobriu a língua inglesa que um dia ousara dizer odiar. Através de olhos quase tão jovens quanto os seus viu um pequeno pedaço das belezas do mundo que sonhava encontrar. Aprendeu que a maneira de ver o mundo não depende apenas do olhar, mas também da língua através da qual poderia se pronunciar.

Em seus dezoito anos vira tanto, mas tudo o que vira era quase nada. E lhe disseram: “Se escolher essa profissão acabará sendo professora.” Como uma praga ameaçavam. Mas a garota que um dia sonhara em ir para a escola sorria despreocupada, afinal ensinar também é arte!



Obs. Inspirado em acontecimentos e pessoas reais, por mais distantes que os fatos estejam na memória da autora. A imagem, contudo, foi retirada do site Deviantart e é nada menos que a representação de um professor que marcou e continua marcando muitas infâncias e adolescências em todo o mundo.

Obs.² Esse texto é uma repostagem do antigo blog, por isso a data do post não é a mesma do dia dos professores em si.

















Bela e poderosa soberana. Devastadora e salvadora. Tantos adjetivos para descrevê-la. Dona de tantas formas e tantos nomes. Às vezes pode também ter gostos e cores, nem sempre agradáveis. Tu és imperatriz e rainha deste planeta que os homens tolamente pensam comandar.

Seu nome?

As lágrimas derramadas pelo céu ganham o nome de chuva ou tempestade, que alimenta a terra e assusta pescadores. O calor a transforma no vapor das nuvens e das brumas, que pode vir de lagos, rios e oceanos, sendo o ciclo infinito que sustenta a vida. O frio faz de ti gelo e neve, novamente bela e mortal. Quem a chama apenas de água não conhece teu verdadeiro poder.

Mas nunca fora tão bela e devastadora como naqueles anos da juventude do mundo. Uma época em que só os céus podem se recordar atualmente, pois a terra não é a mesma de outrora, embora as rochas sejam compostas da mesma matéria. Além de tu, que é oceano e tempestade, somente o céu presenciou o medo e o pavor estampado em cada face daquele povo.

Eles sempre te viram como mãe, como fonte de alimento e vida. No entanto, as lendas falam da tua traição para com seu povo. As lendas contam sobre o mar que destruiu a mais inteligente civilização de todos os tempos. Há muitas lendas sobre o mar, mas nenhuma delas sobreviveu por tantos séculos como Atlântida.

Por muito tempo alimentou e cuidou do teu povo, e nenhum outro foi tão grato como aquele. E por muitas auroras as sereias fizeram coro à tua música nas praias do litoral. Como era encantadora a juventude do mundo! Até hoje o céu lamenta a ausência dos sábios dragões entre tuas nuvens.

Mas então vieram aquelas que os homens chamam de primeiras civilizações. Um erro. A primeira foi apenas uma, a única e grandiosa Atlântida. E aquelas que surgiram mais tarde julgaram erroneamente tuas forças e até pensaram que poderiam controlar-te. Somente os atlantes souberam pedir para navegar sobre teus mares e matar a sede em teus rios.

Foi absurdo.

Foi egoísta.

Foi magnifico.

Mas tomaste tua decisão.

Transformaste em lenda para toda a humanidade de todas as eras a história de teu povo. Tu fora o palco e a protagonista do teu próprio teatro. O céu e a terra foram apenas figurantes.

Veio dos céus, veio do mar e dos lagos. Estava também no ar e nas cavernas subterrâneas. E era apenas uma.

A terra tremeu e o céu gritou com seus trovões. Era a noite mais assustadora que qualquer ser vivo poderia presenciar. Era a noite que as profecias mais antigas já previam e que a lendas de muitas eras ainda irão comentar.

Tua fúria foi tão grande que desfigurou a terra e deslocou rochas, que juntou lagos e mares e elevou montanhas. Em meio a tuas ondas desapareceu aquela que outrora foi rica e mágica. Para tuas profundezas levou a Atlântida com seu povo, com seus dragões, com sua magia.

E teu maior segredo é ter poupado a vida daqueles que sempre te amaram e que sempre foram teus filhos. Pois nem o céu tem certeza de que tu ainda guardas em teus mares o teu povo. Em tuas profundezas o povo atlante habita submerso. E as sereias por vezes cantam na superfície relembrando a juventude do mundo.

Esconde tão bem teu tesouro que outros humanos com suas maquinas infantis, jamais o encontrarão. E lá viverá Atlântida até o fim dos tempos, com seu povo, suas sereias e seus dragões.

Até que o fogo vindo do céu devore sem piedade as outras civilizações.